PREMIADOS CONVOCATÓRIA PEF 2018

"CORPOS DE FÉ"

ENSAIO FINALISTA DE BETO SKEFF

Para descrever um corpo é necessário primeiro perceber a sua presença: o arrastar das chinelas, o calor percorrendo a pele, o olhar seco da paisagem que acompanha as falas que acontecem por dentro. Mais de um milhão de faces, corpos em movimento, o Corpo da Fé. Esta substância fluida cria e recria fronteiras que se contraem e se dilatam com a sua passagem, como ventres que respiram juntos um sopro de vida que alimenta o caminho do Santo Sepulcro.

 

O Corpo da Fé é fronteira entre o efêmero e a perenidade. Afirmar isso é abraçar ainda mais sua natureza imprecisa, porosa, sendo essa indefinição justamente o que lhe permite reunir deslocamentos de origens tão diversas em torno de uma mesma busca, que deixa rastros de desejo e de gratidão. Essas jornadas atravessam o tempo, somando caminhos e passos, erodindo e edificando objetos de devoção.

 

Compreender essas rotas também como pontos de encontro e de partilha, é perceber que essa devoção está em constante movimento, elaborando fala por fala, corpo a corpo, a imaterialidade pulsante da fé, que se faz como exercício do desejo, um desejo de realização, que provoca percursos entre presente e futuro, físico e espiritual.