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ENSAIO PRÉ-SELECIONADO PEF 2026 de Bianca Tomaino

OURO DE MINA

Ouro de mina: algo de valor inestimável, genuíno, representativo, único. Não por acaso, a
gramática que constrói a linguagem comunitária brasileira se faz presente, hoje, na música,
literatura, artes plásticas e, também, na fotografia. Assim, o ensaio proposto conta a história de Carlos Alberto e Jayme. Irmãos, homens octogenários, trabalhadores ourives desde a adolescência, têm, nas mãos e na pequena oficina, no Centro do Rio de Janeiro, o entalhe de memórias construídas em si e à vida de clientes, amigos e familiares, ao longo de mais de 50 anos de ofício. Com “Lalá” por mestre, tio e padrinho, cresceram sob a sabedoria do conhecimento oralizado, sob a custódia e acolhimento dos mais velhos tornando-se, hoje, eles mesmos, pais, avós, artesãos, artistas. Se a ourivesaria é a arte da atribuir valor ao metal e às gemas, em rito silencioso e solitário, de pausa que conflita com a aceleração da vida cotidiana, a fotografia é a arte que, também, pela pausa, revela o valor da memória e do direito de pertencer ao mundo. Captura o tempo e o espaço cotidianos, atribuindo a homens e mulheres esquecidos em oficinas, o direito à sobrevida. Carlos e Jayme, por décadas, foram, como tantos, espectadores, mas, também, agentes das mudanças da cidade onde nunca deixaram de trabalhar. Viram monumentos, parceiros de trabalho e amigos partirem, abraçados à fé, tão sincrética quanto a Arte, resistindo, imponentes. Neste ensaio, vimos, sob alinhavo da transformação do metal, como uma família se molda e transforma, em joia, aoque, ordinariamente, damos preço, mas, não valor: a vida. Carlos é meu pai, meu Ouro de Mina.

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