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ENSAIO PRÉ-SELECIONADO PEF 2026 de Alexandre Berner

RETRATOS DE GONGWANA

 

As rochas de Armação dos Búzios retratam parte importante da rica história do planeta Terra. Por ali, uma cadeia de montanhas semelhante ao atual Himalaia se formou há 500 milhões de anos, por colisões de terrenos que geraram o paleocontinente Gondwana. Sua quebra, que deu origem ao oceano Atlantico 350 milhões de anos depois, também está registrada nas rochas da região.

Sólido e imutável é o terreno. Fluida é a água. Só o tempo subverte essa convicção. Oceanos ganham forma rígida na fluidez dos continentes. Só nos acostumamos com a paisagem porque não comportamos o tempo geológico. A geologia é uma ciência histórica, mas de dimensão abstrata.

 Fotografar o encontro do continente com o oceano apresenta essa reflexão. Quantos milhões de anos podem ser representados na fração de tempo que eterniza uma onda? “A música não está nas notas, mas no silêncio entre elas”. Ler a paisagem não é como assistir a um filme. É mais como ler um álbum de fotografias: o hiato temporal é quem conecta a história. O tempo é o locutor da paisagem.

 

Como fotógrafa e habitante da região, vivi as enchentes de dentro, acompanhando suas consequências cotidianas.

 

O natural não requer passado ou futuro. Mas o homem inventou o tempo e uma máquina que o aprisiona. E assim, viver em Gondwana hoje é possível.

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