BLOG PEF 2022 Por André Teixeira

©Mario de Andrade
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BATE-PAPO COM PEDRO VASQUEZ

Poeta, romancista, musicólogo, historiador de arte, crítico, considerado um dos fundadores do modernismo no Brasil, Mario de Andrade também se dedicou à fotografia, ainda que de forma experimental, deixando um acervo ainda pouco conhecido de imagens da cultura e patrimônio popular brasileiros. Este trabalho será apresentado pelo fotógrafo e pesquisador – entre outras atividades – Pedro Karp Vasquez numa das mesas do 18º. Paraty em Foco. Nesta entrevista, ele fala sobre a incursão de Mario de Andrade no universo das imagens e de sua expectativa para a edição 2022 do Festival. 

 

O que você vai apresentar no Paraty em Foco relativo ao trabalho do Mario de Andrade? Quantas fotografias? É um material inédito? Como foi descoberto?

   Vou fazer uma palestra, com um número ainda indeterminado de fotografias, pois ainda estou tentando conseguir a liberação das imagens para projeção. Não se trata de material absolutamente inédito, mas muito pouco conhecido no meio fotográfico. Algumas fotografias foram expostas na Casa Mário de Andrade, em São Paulo, e incluídas em dois livros: Mário de Andrade: Fotógrafo e turista aprendiz, publicado por iniciativa de José Mindlin (1993), com textos de Telê Ancona Lopes e Ana Maria Paulino, e O fotógrafo Mário de Andrade, de Amarildo Carnicel (1994). Como esses livros datam de quase três décadas atrás, achei que o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 poderia ser o pretexto ideal para chamar a atenção das novas gerações sobre o trabalho fotográfico de Mário de Andrade, realmente um dos intelectuais mais versáteis e criativos que o Brasil já teve. 

 

Sobre que temas o fotógrafo Mario de Andrade costumava se debruçar? O que chama a atenção, além da importância histórica, nestas fotografias? 

    Mário de Andrade era apaixonado pela cultura popular e pelo patrimônio cultural do Brasil como um todo, tendo sido um dos responsáveis pela criação do atual Iphan (antes Sphan), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de ter sido diretor do Departamento de Cultura de São Paulo. Sua fotografia refletia esses interesses, focalizando as manifestações culturais populares, o patrimônio construído e também as moradias simples e os hábitos de trabalho do povo das regiões por ele visitadas. Segundo a professora Telê Ancona Lopez, “Mário de Andrade foi um fotógrafo moderno, mas de reconhecimento tardio. Em seu Arquivo, no IEB-USP, na série Fotografias, entre as subséries ali organizadas, afirma-se aquela que assim o caracteriza, com mais de 700 imagens em positivo e um número expressivo de negativos.”

Entre 1927 e 1930, ele realizou duas grandes viagens pelo Brasil, dedicando-se à fotografia. O que ele produziu nesses dois períodos? Este material está preservado?

    A viagem determinante foi a primeira, pois deu origem ao livro O Turista aprendiz, que se dizia “fotógrafo aprendiz de Codaque” (neologismo criado por ele a partir, evidentemente, da marca Kodak, de filmes e câmeras). Nesta viagem ele registrou igrejas, claustros, cemitérios, pontes e diversos detalhes arquitetônicos, assim como os mercados populares, os vendedores e vendedoras ambulantes, como as “baianas”, com seus trajes típicos, os cantadores e demais músicos populares, os ceramistas e outros artistas. Tudo isso, sem esquecer-se de retratar também seus companheiros de viagem. Todo o acervo (que além das fotografias de sua autoria reúne também imagens de outros autores, quadros, gravuras, desenhos, manuscritos e sua biblioteca pessoal) de Mário de Andrade está perfeitamente conservado no IEB, Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

É possível observar uma diferença, entre uma viagem e outra, nas temáticas abordadas e em questões como enquadramento, composição e utilização da luz?

    Não conheço toda sua obra fotográfica para ter condições de emitir uma opinião abalizada a esse respeito. Mas minha impressão pessoal é a de que não houve grande variação estilística ou temática, mesmo porque a maioria das imagens foi produzida na primeira viagem. Sua influência maior foi, ao que parece, Lázsló Moholy-Nagy, o emblemático teórico, professor e editor da Bauhaus, cuja obra ele conheceu em primeira mão, pois dominava perfeitamente o idioma alemão.

Este material chegou a ser exposto ou publicado? Ou o próprio Mario não tinha esta intenção, não encarava a fotografia com esta perspectiva, digamos, “artística”?

   Mário de Andrade nunca se considerou fotógrafo e sim um simples amante da fotografia, nunca se preocupando, portanto, em exibir seu trabalho, que só ficou conhecido em caráter póstumo. Colaboraram bastante para isso a edição do já citado livro Mário de Andrade: fotógrafo e turista aprendiz, pelo IEB em 1993, e a exposição “Mário Fotógrafo”, realizada na Casa Mário de Andrade entre maio e setembro de 2019. Sem esquecer, é claro de O turista aprendiz, em 1976, por iniciativa da professora Telê Ancona Lopez.

Outros participantes da Semana de Arte demonstravam interesse semelhante pela fotografia? Quais?

    Não. Mário de Andrade foi o único dos participantes da Semana a manifestar um interesse real e profundo pela fotografia, muito embora outros também tenham reconhecido sua importância como meio de expressão artística e documental, como Oswald de Andrade, por exemplo. 

 

Houve alguma resistência a este viés da atuação do Mario de Andrade? Como os artistas da época viam essa relação dele com a fotografia?

   Não houve qualquer tipo de resistência ou de restrição, mesmo porque, como foi dito acima, os escritores, músicos, dramaturgos e artistas modernistas estavam bastante antenados com o que ocorria na Europa. E, por outro lado, o movimento fotoclubista brasileiro foi bastante ativo no período do entreguerras produzindo uma fotografia ousada e inovadora que tem sido qualificada hoje, justamente, de “moderna” ou “modernista”. No caso específico de São Paulo merecem destaque neste sentido, evidentemente, os fotógrafos que viriam a fundar o Foto Cine Clube Bandeirantes, fundado em 1939, como Thomas Farkas, Geraldo de Barros e Eduardo Salvatore, German Lorca e Chico Albuquerque, entre tantos outros fotógrafos igualmente talentosos.

O que os fotógrafos contemporâneos têm a aprender com este acervo?

    Do ponto de vista técnico os fotógrafos nada têm a aprender com Mário de Andrade, que conhecia bem seus limites e limitava-se a curtir o prazer de “fotar” com sua “Codaque”. Contudo, do ponto de vista estético e conceitual, têm sim, com toda certeza, muito a extrair do legado fotográfico de Mário de Andrade. Prova disso é o fato de que uma das maiores fotógrafas de nosso país, Maureen Bisilliat, foi inspirada por ele, realizando o projeto “Decantando as águas: O Turista Aprendiz revisitado”, publicado em livro pela Cinemateca Brasileira em 2012, depois de ter sido inspirado uma sala especial na 18ª Bienal Internacional de São Paulo em 1985. No mundo acadêmico merecem menção o livro O fotógrafo Mário de Andrade, de Amarildo Carnicel (Editora da Unicamp, 1994); e a tese de mestrado “Mário de Andrade fotógrafo: possibilidades de uma câmera moderna”, de Viviane Azevedo Vilela, apresentada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, em 2017. Exemplos que demonstram que o trabalho fotográfico de Mário de Andrade continua sendo uma fonte de inspiração constante nas mais diversas áreas do conhecimento.

Você está desenvolvendo uma pesquisa sobre este assunto? Vai virar um livro?

  Não, meu único desejo é o de homenagear Mário de Andrade aproveitando o pretexto do centenário da Semana de Arte Moderna. Isso porque me identifico muito com seu espírito generoso e visionário: era um escritor da maior importância que não se preocupava apenas com a própria obra, envidando todos os meios para valorizar a cultura brasileira como um todo, desde a vertente erudita até a popular.

Você já participou de outras edições do Paraty em Foco. Como vê a evolução do festival e o tema deste ano, Horizontes da Fotografia? No que esta discussão pode contribuir para o cenário da fotografia brasileira?  

  Para mim o festival Paraty em Foco é um magnífico exemplo de resistência cultural, merecendo destaque a figura do seu idealizador e principal curador desde sempre, Giancarlo Mecarelli. Isso, sem esquecer os numerosos colaboradores que se empenham em enfrentar as mais diversas dificuldades para manter o festival vivo e pujante. Uma das dificuldades, de caráter mais complexo e universal é a própria transformação pela qual vem passando esse meio de expressão, e que se reflete no título da proposta, “Horizontes da Fotografia”, que visa justamente refletir acerca dos caminhos e das possibilidades da imagem fixa em tempos (do ponto de vista técnico) do digital e (em termos existenciais) do “novo normal”. Sabemos bem de onde viemos e onde estamos, mas precisamos fazer uma profunda reflexão para saber para onde podemos ir de agora em diante. Tenho certeza de que o debate será frutífero e muito inspirador para todos os participantes.