BLOG PEF 2021 Por André Teixeira

©Rogerio Reis, Ninguém é de Ninguém
©Rogerio Reis, Ninguém é de Ninguém

©Rogerio Reis, Ninguém é de Ninguém
©Rogerio Reis, Ninguém é de Ninguém

©Rogerio Reis
©Rogerio Reis

©Rogerio Reis, Ninguém é de Ninguém
©Rogerio Reis, Ninguém é de Ninguém

1/17

BATE-PAPO COM ROGÉRIO REIS

Como a fotografia surgiu na sua vida, e por que virou uma profissão?

        Meu desvio para a fotografia se deu no ambiente da repressão política e da contracultura dos anos 70, no Rio, quando parte da minha geração buscava profissões menos previsíveis.

       Com o tempo, o sonho foi ganhando sentido e forma através das ações educativas com os professores Georges Racz (Laboratório Experimental no Bloco Escola do MAM-RJ), Peter Gasper (técnicas de Iluminação na UERJ), Dick Welton (Sistemas de zonas por Ansel Adams, estúdio no Leme), David Zingg (retratos no estúdio do Jardim Botânico) e  Alair Gomes (observações de campo em Ipanema).

       Em 1977, já cursando Comunicação Social na Universidade Gama Filho, fui selecionado através do programa Universidade Empresa para a minha primeira experiência no Jornal do Brasil. Quando lá cheguei fiquei impactado ao ver que todos os ambientes dos nove andares daquele imenso prédio eram decorados com fotos do super time de fotógrafos da casa.  Após as experiências n’O Globo e revista Veja, fui fisgado em 1984 pela agência F4, grupo de fotógrafos independentes que buscava autossuficiência na produção e distribuição das suas pautas.

         Em 1989, Claus Meyer, Ricardo Azoury e eu criamos a Tyba, um acervo de imagens de temas brasileiros.

Quais foram seus momentos mais marcantes no fotojornalismo, tanto como fotógrafo como quanto editor?

         Vejo o papel do editor de fotografia como figura central no ambiente da redação. A maior parte do tempo eu atuava junto aos outros editores na criação das pautas e na edição do impresso.  Partindo do pressuposto de que o fotojornalismo e seu regime de verdades vivem uma permanente crise de representação, buscávamos sempre que possível desenvolver novas ações e conceitos para enfrentar os vícios imagéticos maniqueístas da chamada grande imprensa. Foi nessa direção que ganhamos qualidade  e agilidade com a contratação da Rosangela Alvarenga como produtora de fotos para atuar próximo ao estúdio e aos suplementos que iam além do noticioso e solicitamos ao departamento de engenharia que retirasse a divisória que separava a fotografia da redação.

          As grandes coberturas, como visitas do Papa no Brasil e Copa do Mundo dos Estados Unidos, foram projetos complexos porém gratificantes e de bons resultados pelas mãos dos fotógrafos Sérgio Moraes e Olavo Rufino. Tive também o prazer de acompanhar de perto os dois prêmios Esso que confirmavam a escalada da violência na nossa cidade: o Luiz Morier  com “Turistas Assaltados na Floresta da Tijuca” e o Michel Filho com “Tiroteio na Linha Amarela”, ambos flagrantes de fotógrafos dedicados e experientes.

       Quando fui editor, optei por não fotografar. Fora desse período, tenho orgulho de ter contribuído como fotógrafo no período da anistia às diretas já.

Quais são as características indispensáveis para o repórter fotográfico e para o editor? Um excelente fotógrafo é necessariamente um ótimo editor?

         Nem sempre um bom fotógrafo é um bom editor e um bom editor pode até não ser fotógrafo. Como a profissão em ambos os casos pede muita dedicação, é necessária uma boa dose de paixão e responsabilidade social, já que o jornalismo opera na interface entre os fatos e a sociedade e somos agentes formadores de opinião.

Você é editor da Tyba, um dos mais tradicionais bancos de imagem do Brasil. Sabemos que a oferta de fotografias é cada vez mais ampla e variada, muitas vezes a preços ínfimos ou mesmo gratuitas. Como sobreviver nesse mercado? Que diferencial a Tyba vem buscando?

         A Tyba é um acervo de fotos de terceira geração e hoje  somos também uma rede de bons fotógrafos presentes nas capitais do país.

        A revolução digital e as novas práticas de mercado como o royalty free e o microstock, que muitas vezes vendem uma foto por apenas cinco dólares,  atingiram negativamente o nosso mercado, já que ainda atuamos no regime de direitos controlados com licenças para usos específicos das imagens. Com o advento do digital, os fotógrafos de carreira perderam a exclusividade do meio fotográfico em benefício de todos e a oferta se tornou ampla e difusa. Nesse sentido, podemos dizer que a fotografia hoje vive menos do capital financeiro e mais do capital simbólico, que em outras palavras significa que a fotografia não põe mesa farta, mas oxigena a autoestima de muitos.

        Diante dessa nova realidade, para manter o nosso acervo ativo com bom atendimento, optamos por ampliar as nossas atividades para o campo educativo, consultorias com acompanhamento de projetos, exposições e aluguel do nosso estúdio, agora reversível e equipado também para encontros e palestras.

Diariamente reservo um tempo para  acompanhar e editar a produção dos nossos colaboradores para o www.tyba.com.br

Além da atuação da Tyba, que trabalho desenvolve com fotografia atualmente? Como você se definiria hoje em relação à fotografia?

         Pela experiência até aqui me considero um fotógrafo generalista, caçador coletor de imagens da minha cidade, o Rio. Vejo a fotografia documental como um campo fértil para muitas investigações além do campo jornalístico. Gosto de experimentar linguagens onde algumas vezes as imagens ou objetos são apresentados de forma não convencional, sem molduras e sem uso das paredes. Ao contrário dos fotógrafos viajantes, sou um cronista urbano, faço residência artística no caos da minha cidade e sigo estudando, produzindo e agenciando meus trabalhos  como Carnaval na Lona, Surfistas de Trem, Linha de Campo, Vôo de Papel, Ninguém é de Ninguém, Travesseiros Vermelhos, Microondas, Phebolitos (em processo) e outros.  No momento fotografo Copacabana, sempre pela manhã.

Tem conseguido produzir durante a pandemia? Que projetos vem desenvolvendo?  Teve que adaptar algum trabalho autoral por causa do Covid?

         Nesse período cruel de perdas humanas tenho trabalhado mais de forma remota, em casa. Estou pesquisando e sugerindo alguns ensaios de fotógrafos brasileiros para a  “L'Imperiale Collection” de fotolivros da Éditions Bessard de Paris e  propondo  alguns nomes para difusão e comercialização pelo grupo LUMAS, de Berlim. Venho  também acompanhando a evolução do “Olho Nu”, meu próximo, livro editado pelo João Farkas e concebido pelo design Kiko Farkas com o apoio do Instituto Olga Kos, de São Paulo. 

Como avalia o nível da fotografia brasileira, no mercado editorial ou no mundo da arte?

         Apesar da falta de apoio e da ausência de políticas públicas para o setor, a fotografia brasileira tem uma boa expressão em processo de reconhecimento pelo regime de valores da arte. Recentemente, o MOMA (NY) adquiriu boa parte da fotografia moderna do grupo de São Paulo ligado aos fotoclubes dos anos 40, 50 e 60. Por outro lado, acho inconcebíveis casos como o do arquivo fotográfico do Jornal do Brasil, que foi desorganizado e abandonado em um depósito aqui no Rio.

        Ainda necessitamos fazer o dever de casa básico, que é constituir e preservar a  nossa memória e educar os novos fotógrafos, que agora são muitos. No mundo da imagem digital, a educação do olhar deve ser matéria obrigatória nas escolas.

O tema do Paraty em Foco é “Fotografia Solidária”. Diante disso, o que espera ver na edição deste ano?

         O Paraty é um dos pilares da nossa história porque educa, produz debates e promove fotógrafos de forma sistemática. Acho o tema “Fotografia Solidária” bem oportuno e apropriado para o nosso momento atual. Como um dos jurados dessa atual convocatória, espero encontrar e ver práticas multiculturais com ações de alteridades e uma boa dose de entrega e talento dos nossos participantes.